Baked Beans. Ovos Estrelados. Torradas. Morcela. Salsicha. Cogumelos. Tomate.
Há viajantes que acham que um só pequeno-almoço não chega.
Deixámos Arran pela manhã e lentamente fomos começando a despedir-nos do “lado selvagem” da Escócia. As highlands foram ficando para trás e seguiam-se agora estradas mais ou menos planas. Sempre o mesmo verde intenso, sempre as mesmas (mas outras) ovelhas e vacas espalhadas pela paisagem, mas já sem os grandes vales e declives. A última paragem é New Lanark, uma vilazinha a cerca de 40 milhas de Edimburgo, considerada património da humanidade pela Unesco.
New Lanark é (ou foi) um projecto utópico de David Dale e Robert Owen, que em pleno século da Revolução Industrial, decidiram investir num nicho fabril que proporcionasse melhores condições de vida aos operários fabris. Sim, melhores condições de vida aos operários fabris durante a Revolução Industrial. Parece uma contradição não é? Construíram um complexo para a produção de algodão (produção essa suportada pela força da água e por um conjunto de poderosos moinhos) e retiraram cerca de 2500 trabalhadores pobres dos bairros degradados de Edimburgo e Glasgow.
De início a cada família era dado o direito de ter um quarto para si com camas para todos os membros (o que era visto na altura como um luxo para a classe operária), mas passados alguns anos as famílias maiores ganharam o direito a ocupar vários quartos. No final do século XIX já havia uma lâmpada eléctrica em todos os quartos. Ainda insatisfeito com o projecto Robert Owen investe também na educação das cerca de quinhentas crianças de Lanark e é pela aprendizagem que tenta passar mensagens de uma sociedade mais justa, mais equilibrada, mais saudável, baseada na cooperação de todos os indivíduos para o bem comum dessa sociedade. Hoje em dia New Lanark é um lugar deserto, parado no tempo, abandonado a um ideal quimérico, mas ao caminharem pelas suas ruas as viajantes não se deixam de perguntar: será possível, a sociedade perfeita? A sociedade justa?
Seguimos para Edimburgo e voltámos aos sinais de trânsito, às rotundas caóticas, aos muitos carros a quererem ir para todo o lado. É tempo de regressar ao aeroporto para entregar o carro.
Sim, está tudo bem. Sim, o homenzinho da europcar fez a inspecção e não disse nem ai nem ui. Sim, sobrevivemos a conduzir no lado errado da estrada. Uma das viajantes em determinada altura ia morrendo de coração quando outra das viajantes conduzia, mas como ela diz “às vezes os carros encolhem”.
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