sábado, 11 de setembro de 2010

Na grande cidade

Não é a maior cidade, mas é a capital. Chegámos a Edimburgo, ou como os escoceses lhe chamam, Dùn Èideann. Voltámos a ver ambulâncias e polícias na rua, passeios só com grandes lojas e McDonald’s, sinais verdes e vermelhos que nos dizem quando podemos ou não atravessar a estrada e grandes autocarros de dois andares. Muitos autocarros. A pousada fica mesmo no início da Princes Street, no West End, e conseguimos ir a pé para todos os lados que queremos conhecer. Na primeira manhã chove, chove muito, e nós pensamos que sim, isto é o verão deles e que pelo menos uma das viajantes nunca conseguiu andar de manguinha curta na rua. À hora do almoço a chuva pára e é tempo de passear. De andar. A Royal Mile.

Vamos em direcção ao castelo, que se ergue literalmente no meio de um monte que fica no meio da cidade. Divide a “old town” , mais medieval e primitiva, com ruas mais estreitinhas, da “new town”, a das grandes avenidas e construções iluministas, e a sua história está ligada a inúmeras guerras sangrentas, primeiro ligadas à independência do país, e depois as muitas guerras civis religiosas que por aqui existiram. Na entrada ainda estavam montadas as bancadas da famosa “Edinburgh Military Tattoo” e as viajantes lamentaram por não terem cá estado em Agosto para o famoso festival.


Percorremos a famosa Royal Mile, que se é famosa pela sua história e ligação à cidade, hoje em dia é sobretudo uma milha de lojas de souvenirs e atracções turísticas amontoadas umas em cima de outras. Outros viajantes pedem-nos indicações para as famosas Tours de fantasmas e bruxaria, as quais surpreendentemente conseguimos dar, mas depois de percorrida uma vez não apetece muito voltar à Royal Mile. É demasiado turística e povoada.


Mas aos jardins apetece voltar. Ainda mais se existir alguém a tocar gaita-de-foles num dos seus cantos, que dá para ser ouvida em todos os outros cantos. Os jardins solarengos serão sempre jardins solarengos, com bancos, com verde, com luz, com sítios onde nos podemos sentar na relva e deitarmo-nos de barriga para o sol. As viajantes gostam de cidades com jardins.

A Sílvia é boa mãe

- Porque nos deixa comer pringles muitos dias seguidos

- Porque nos compra gomas

- Porque tem o carro sempre abastecido de “capri-sun’s”

- Porque quer lá saber quantos chocolates comemos por dia

- Porque não se chateia por sermos desarrumadas

- Porque podemos comer bolachas de manteiga escocesas até rebentar

- Porque nos compra cerveja e vinho e azeitonas para o jantar

- Porque ontem nos deixou vadiar até tarde pela cidade

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Gente Fina

Vai à Escócia e bebe ao jantar vinho da Califórnia, da Austrália e do Chile =)

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A foto que mais temos pena de não ter tirado...

É ao banco de trás do nosso carro, antes de o termos entregue no aeroporto...


(mas uma das viajantes fica contente por se poder contar sempre com as fotos imaginárias)

Utopias

Baked Beans. Ovos Estrelados. Torradas. Morcela. Salsicha. Cogumelos. Tomate.
Há viajantes que acham que um só pequeno-almoço não chega.

Deixámos Arran pela manhã e lentamente fomos começando a despedir-nos do “lado selvagem” da Escócia. As highlands foram ficando para trás e seguiam-se agora estradas mais ou menos planas. Sempre o mesmo verde intenso, sempre as mesmas (mas outras) ovelhas e vacas espalhadas pela paisagem, mas já sem os grandes vales e declives. A última paragem é New Lanark, uma vilazinha a cerca de 40 milhas de Edimburgo, considerada património da humanidade pela Unesco.

New Lanark é (ou foi) um projecto utópico de David Dale e Robert Owen, que em pleno século da Revolução Industrial, decidiram investir num nicho fabril que proporcionasse melhores condições de vida aos operários fabris. Sim, melhores condições de vida aos operários fabris durante a Revolução Industrial. Parece uma contradição não é? Construíram um complexo para a produção de algodão (produção essa suportada pela força da água e por um conjunto de poderosos moinhos) e retiraram cerca de 2500 trabalhadores pobres dos bairros degradados de Edimburgo e Glasgow.


De início a cada família era dado o direito de ter um quarto para si com camas para todos os membros (o que era visto na altura como um luxo para a classe operária), mas passados alguns anos as famílias maiores ganharam o direito a ocupar vários quartos. No final do século XIX já havia uma lâmpada eléctrica em todos os quartos. Ainda insatisfeito com o projecto Robert Owen investe também na educação das cerca de quinhentas crianças de Lanark e é pela aprendizagem que tenta passar mensagens de uma sociedade mais justa, mais equilibrada, mais saudável, baseada na cooperação de todos os indivíduos para o bem comum dessa sociedade. Hoje em dia New Lanark é um lugar deserto, parado no tempo, abandonado a um ideal quimérico, mas ao caminharem pelas suas ruas as viajantes não se deixam de perguntar: será possível, a sociedade perfeita? A sociedade justa?


Seguimos para Edimburgo e voltámos aos sinais de trânsito, às rotundas caóticas, aos muitos carros a quererem ir para todo o lado. É tempo de regressar ao aeroporto para entregar o carro.


Sim, está tudo bem. Sim, o homenzinho da europcar fez a inspecção e não disse nem ai nem ui. Sim, sobrevivemos a conduzir no lado errado da estrada. Uma das viajantes em determinada altura ia morrendo de coração quando outra das viajantes conduzia, mas como ela diz “às vezes os carros encolhem”.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Arran

Gostámos das ilhas. E por isso voltamos a elas. Desta vez o destino é a ilha de Arran e o porto é o de Claonaig. Ao contrário de Uig neste porto não há nada. Não há supermercados de décadas passadas nem bombas de gasolina decadentes. Há sim uma rampa de cimento no meio de um imenso verde e é ali que o ferry vai atracar. Não estamos a exagerar quando dizemos que tudo é no meio do verde, que tudo é no meio de uma paisagem de postal, os sítios estão mesmo lá, e até uma simples plataforma de acesso a um ferry deixa uma ideia romântica na paisagem. A ideia do partir e do chegar. Nós partimos.

À chegada à ilha não percorremos nem uma milha (sim, agora as viajantes já se falam por milhas) até parar o carro. Imaginem uma água muito muito azul, completamente transparente e em que vemos todos os contornos e todas as cores das pedras que estão no fundo do mar. A água que encontrámos em Arran é assim. Como se estivéssemos no Mediterrâneo azul e solarengo.


Contornámos a ilha e em cada curvinha ficávamos mais encantadas com a ilha. Que não tem nada. No próprio folheto turístico que lemos no ferry se lê “Brodick é a única cidade como deve ser que existe em Arran” e é mesmo verdade. Tudo o resto são casinhas plantados à beira mar, com jardins arranjadinhos, e flores nas janelas, e cantinhos de vidro e madeira confortáveis em casas com duas chaminés.


À chegada da pousada temos duas grandes surpresas: a primeira é que tem vista para uma baía com um castelo e a outra é que no jardim da pousada está a passear um veado. Sim, um veado, daqueles mais novinhos (a que ainda chamamos bambi), que anda lá de um canto de uma árvore para outro. Infelizmente uma das viajantes fez barulho a caminhar e o bambi subiu para o bosque.


Arran tem montanhas. Arran tem ciclistas. Arran tem montanhistas. Arran tem um fim do dia luminoso e com sol. Arran tem água transparente. Arran tem veados. Arran tem castelos. Arran tem o seu queijo. A sua cerveja. O seu whisky. Arran tem baías. Arran tem banquinhos virados para o mar. Arran parece saudável. Arran tem uma pousada que nos parece de cinco estrelas. Arran parece a ilha perfeita.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O comboio do Harry Potter

Em Uig pusemos despertador. Faltava-nos ainda metade da ilha para ver antes de apanharmos o ferry de volta e como boas turistas tugas que somos, queríamos ir a todo o lado. Por isso pusemos o despertador e saímos cedo. Como aquelas pessoas que saem da pousada para caminhar logo de manhãzinha. A primeira paragem foi o castelo de dunvegan. Estava fechado. Pagava-se. Tinha tanta vegetação à volta que não dava sequer para ver a torre. Nós fomos espertas e demos a volta. Andamos a aprender que com paciência e coragem para nos enfiarmos em caminhos minúsculos conseguimos contornar as entradas e ver os castelos, sem pagar. E foi isso que fizemos. E ainda tivemos o bónus de ver o castelo do “loch”, com a àgua à volta, coisa que nunca teríamos conseguido se pagássemos e entrássemos como um turista normal.


Seguimos em busca de Nest Point… sim, o do farol invisível. Como não queremos falar sobre o assunto, vamos apenas recordar os caminhos que nos levaram até lá. São caminhos onde saímos do carro e não vemos mais ninguém à volta. Onde em cruzamentos minúsculos temos que pedir ao carro que aí vem para nos ajudar porque literalmente estamos em estradas que não aparecem no mapa. Onde andamos aos altos e aos baixos, para este e para oeste, sempre à espera de encontrar o mar a seguir à próxima curva, mas sem nunca o conseguir, embrenhando-nos cada vez mais no emaranhado de trilhos. Saberemos voltar?


Antes do almoço seguimos para a nossa primeira viagem por águas escoceses. Em Ferry’s velhos, grandes, com muito espaço para carros, e onde podemos sentar-nos em bancos de ferro enferrujados no cimo do barco. Está vento nas highlands.

De regresso ao continente deixámos o mundo dos castelos encantados e entrámos no mundo dos pequenos feiticeiros. Chovia, mas as viajantes têm impermeáveis e subiram para ver o famoso viaduto de Glenfinnan, sim, aquele em que passa o Hogwarts Express, o famoso comboio que transporta o Harry, o Ron e a Hermione, de uma plataforma invisível em King’s Cross para a escola de feitiçaria mais conhecida do mundo. E a subida compensou, porque as viajantes viram mesmo o comboio. E se nós vimos o comboio, e se sabemos quem transporta, e para onde vai, é porque tudo é real certo?


As viajantes vão estar atentas à presença d’ Aquele-Cujo-Nome-Não-Deve-Ser-Pronunciado.

O farol invisível

Por trás deste pico, ao qual demorámos cerca de uma hora a chegar por caminhos de cabras, existe um farol. Nós fomos em busca dele e não o vimos. Lindo, não é? Só depois mais tarde ao olharmos para um postal é que percebemos que para se ver o farol tínhamos que ir para um caminho mais à direita.


As viajantes às vezes não são as pessoas mais espertas do mundo.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A caminho da ilha do céu

Hoje é dia de irmos até à ilha de Skye. Mais uma vez serpenteamos pelas highlands e seguimos uma pequena estrada que passa entre vales gigantescos. No meio de tanta imensidão paramos o carro e saímos “só para ver”. Ter férias em que se pare o carro “só para ver” é das melhores coisas que se pode ter. Paramos porque não conseguimos continuar àquela velocidade, paramos porque temos que olhar melhor, paramos porque a paisagem chama por nós, paramos porque temos que parar.

Eilean Castle está aqui mesmo à beirinha.

Não há muito a dizer sobre o castelo, não fazemos ideia da história dele, quem o construiu ou conquistou. Terão sido os Macleods? Os Macdonalds? Terão sido os primeiros reis? Hoje nem a informação que temos no livro vamos ler. Agora, neste momento, queremos só olhar. O resto pode vir depois.


Continuamos viagem e já na ilha paramos mais uma vez, mas agora para ouvir. No meio do nada, no meio de estradas em que não cabem dois carros, no meio de sítios onde nem sempre vemos cabos de electricidade, no meio das falésias e do mar, alguém toca gaita de foles. E sabe bem ouvir. E sabe bem sentar e ouvir. Devíamos dedicar um post deste blog só aos bancos. Existem numerosos banquinhos de madeira, daqueles que dão para umas três pessoas, espalhados por todas as highlands e pelas ilhas, virados para o mar ou só para um vale mais bonito, que têm o único propósito de fazer alguém sentar-se neles para apreciar a paisagem. As viajantes apaixonaram-se por estes bancos e pelas gaitas de foles em lugares distantes.


A caminho de Uig parámos em Quiraing. Mais verde. Mais picos saídos do nada. Mais cumes inventados por não sabemos bem qual mão divina.


O vento não deixou prolongar a estadia e seguimos até ao destino do dia. Em Uig fomos até à bomba de gasolina perguntar onde era a pousada. Uig é uma grande baía na ilha, ponteada por algumas casinhas, e da pousada só sabíamos que devia ser uma dessas casinhas. A bomba de gasolina parecia tirada de um filme dos anos 70. Há sítios que parecem que não vivem já neste tempo e o porto parecia um deles.

domingo, 5 de setembro de 2010

Trocas

Numa pousada maravilhosa perdida no meio de Loch Ness e do Great Glenn acabámos de trocar o empréstimo de um adaptador de corrente por tocarem piano para nós. Lindo, não é?

E para melhorar as coisas bebemos vinho australiano ao jantar e comemos morangos

As viajantes adoram noites como estas

É como andar num conto de fadas...

À chegada à pousada de Inverness fomos recebidos por uma mulher com um copo de vinho na mão. Sim era a responsável pela pousada, sim, falava connosco ao mesmo tempo que bebia, e sim dava-nos todas as indicações necessárias enquanto se deliciava com essa bebida dos deuses. Uma grande bancada de garrafas vazias de todo o mundo fez uma das viajantes perguntar “e licor beirão, já terá provado?”. Ainda não tinha. Mais à noitinha provou e deixamos a primeira garrafa vazia de uma bebida portuguesa no meio de tantas outras. Também nos avisou (mais do que uma vez) que em Inverness os bares não deixavam entrar ninguém depois da meia-noite (mesmo que só fechassem às duas da manhã) e quando a deixávamos sorrindo e agradecendo a informação ela dizia bem-humorada “after don’t say I didn’t warn you”. Gostámos de Inverness. Gostámos de estar mesmo ao pé do castelo. E gostámos da vista da pousada, com grandes vidros sobre a cidade e o rio.

No hostel oferecemos o resto do nosso jantar a um columbiano que lá estava na sala e a reacção dele foi engraçada: ficou espantosamente contente. Achamos que nunca vimos ninguém ficar tão feliz por lhe terem oferecido “pasta”. Genuinamente. Além de ter adorado o jantar (a cozinheira é exímia) disse-nos que até tinha saído da sala por um bocado porque o cheiro da comida o estava a torturar. Dentro de dias ia voltar à Colômbia e estava a aproveitar para ver o que ainda não tinha visto desde que chegara a Londres em Janeiro. Nenhuma de nós sabe o nome do rapaz, mas todas temos a cara dele feliz e a sorrir e a comer avidamente o que lhe tínhamos oferecido. No fim queria à força toda lavar-nos a loiça, mas portuga que é portuga oferece com gosto e não quer nada em troca. Não deixámos =)
No dia seguinte fomos finalmente até ao grande lago, o tão conhecido, o tão famoso, o tão falado em todo o lado, Loch Ness. É um lago grande que impressiona sobretudo pelo sítio em que está situado, no meio das montanhas, das imponentes highlands que se erguem a toda a curva e contra-curva que vamos fazendo. A estrada percorre o lago lado a lado e vamos apreciando toda a sua dimensão. Há mais que espaço para lá viver um, dois ou mais monstros, o lago é grande, e apesar de não termos visto a Nessie gostamos de pensar que ainda pode viver por lá. As viajantes gostam de mundos em que ainda há espaço para monstros grandes e perigosos a viver em lagos misteriosos.

Urquarhat foi a próxima paragem. Um castelo construído à beira de Loch Ness de que hoje restam apenas ruínas. Intencionais. Para que depois de atacado mais nenhum clan que viesse se pudesse servir dele. Apesar de este ser turisticamente muito concorrido, ao longo da viagem vamos vendo vários castelos (ou ruínas deles) espalhados pelas margens de todos os Loch’s que a Escócia tem. Existem dois ou três que são a imagem “de marca” do país, mas muitos dos outros que vamos encontrando não ficam atrás em beleza e imponência. Apesar da história sangrenta do país não conseguimos deixar de imaginar como seria viver nesses bastiões estrategicamente erigidos e que literalmente ficam em paisagens saídas quase da nossa imaginação. O príncipe ficou com a princesa? O rei defendeu o povo? O guerreiro mais justo conseguiu a união dos clans?

Viajar pelas highlands é quase como viajar por um conto de fadas, daqueles que ouvíamos muito quando éramos pequenas

sábado, 4 de setembro de 2010

Whisky a 56,7%

É forte.
Dizem que cura constipações e o último boato é que pode curar inflamações oftalmológicas.

Saimos de Aberdeen em direcção a Fraserburgh, e depois em direcção a Elgin. Duzentos e quarenta quilómetros por entre paisagens verdes, linhas de costa, ovelhas, vacas e rolos de fenos, passando por pequenas aldeias. Muito arrumadinhas, muito limpinhas, muito calminhas. Não tínhamos grandes planos para o dia de hoje, ver as paisagens e as vistas e ir parando faz parte implicitamente do programa.


Parámos na destilaria Glen Moray e fomos descobrir como se faz a famosa bebida escocesa. Entre lavagens ao malte, passagens por entre silos de cobre gigantes, salas de fermentações (onde sim, fomos obrigadas a cheirar o grande depósito, e tivemos aquela reacção típica de acabar a tossir com tanto álcool inspirado – o gajo da destilaria estava a gozar com a nossa reacção não estava?), e depois das visitas aos armazéns onde os barris de carvalho descansam longamente, acabamos por tentar diferenciar o gosto entre três whiskys com idades diferentes – 8, 16 e “reserva especial”.


Os escoceses consideram que os whiskys inferiores a 10 anos nem merecem o nome (nem sequer rotulam a idade na garrafa se for inferior) e nós confirmamos que há realmente diferença entre um e outro. Não sentimos o sabor cítrico e doce que ele claramente nos apregoava, mas conseguíamos distinguir qual dos três era o mais “fraquinho”. O último, o da reserva especial, não sabemos quantos anos tem, mas sabemos que só são feitos em ocasiões especiais (apenas 4 barris de carvalho nos armazéns estavam a “envelhecer” reservas naturais…e os armazéns tinham centenas e centenas de barris). Gostámos da prova. (e desejamos ao stuart, que fez a sua última visita guiada avec nous, sorte na nova vida em aberdeen!!)

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Imprevistos

Uma das viajantes tem uma inflamação nos olhos, o que é deveras irritante. Para além dos olhos vermelhos que assustam qualquer um, a viajante chora imparavel e compulsivamente de hora a hora. Apetece dizer a toda a gente “não, não estou infeliz”, “não, não aconteceu nada de grave”, “não, ele não me partiu o coração”.

A cidade das barbearias

Sol. Quando aterramos em Edimburgo tinhamos sol. Viajar para um país mais frio em pleno Verão faz-nos pensar que em dez dias apenas vamos encontrar nuvens escuras, chuvas, trovões e tempestades, mas a verdade é que ao chegarmos tinhamos um fim de tarde muito agradável à nossa espera. Com sol. Agradável foi também vermos o maquinão que esperava por nós (a sério, os senhores do aluguer do carro farão ideia do perigo que é deixarem-nos conduzir?), um ford focus cor vision. Também não sabem que cor é essa não é?


Nós agora já sabemos. Devagarinho lá fomos tentando encontrar a estrada que nos levaria para fora dali (agora já com um free map na mão) e as primeiras horas de condução foram pacificas. Em Stirling tivemos um sentimento ambiguo: por um lado soube bem chegar e ver ainda uma série de lojas e de restaurantes abertos às dez da noite, mas ao mesmo tempo cruzamo-nos com algumas pessoas “estranhas”* na rua que nos fez pensar por momentos “onde é que viemos parar mesmo?”. De manhã podemos ver melhor.

Imaginem um género de cidade paraíso para as barbearias, onde houvesse muitas, de todas as cores e feitios, para homens, para mulheres, para todos os outros, um sitio para onde quer que se olhasse se avistasse sempre pelo menos uma barbearia. Stirling é essa cidade. A principio achamos que haviam apenas bastantes barbearias, mas conforme fomos andando pela cidade começamos a acreditar que tinha que ser mais que isso. Loja sim loja não havia uma barbearia, e se imaginarmos que passamos por umas 40 lojas isto dá muitassss barbearias. E uma até da Susana.



Depois da tour das barbearias pensámos fazer algumas das tours que realmente interessam, e quisemos ir ver o castelo de stirling e a torre de William Wallace. Visitar estes dois lugares iria ficar-nos “simplesmente” em 51,50 libras o que nos fez desistir da ideia. Atitude tipicamente à portuga, claro, mas comparando o dinheiro que iríamos dar com as outras coisas que podemos fazer com esse dinheiro aqui na Escócia, acabamos por preferir as outras coisas. O guia diz-nos o principal sobre estes dois sítios (uma das viajantes leu em voz alta, mas não sabe bem se a outra ouviu alguma coisa) e seguimos em frente. St. Andrews foi a paragem seguinte e por comparação com Stirling, um lugar abençoado para turistas forretas. Conseguimos ver o castelo, a catedral e as ruínas (e tirar muitas fotografias) sem pagar nada e ainda fizemos um pic-nic na praia ao som de uma gaita de foles. As viajantes adoram sítios assim =)


A viajem para Aberdeen foi agradável. Mais uma vez tivemos sol a acompanhar-nos (estamos para ver quando é que isto vai acabar) e à entrada tivemos a sensação de estar já a entrar numa grande cidade. O trânsito, os sinais e as filas (e o facto de serem cinco e meia da tarde) diziam tudo. Ao segundo dia aprendemos que utilizar o gps para encontrar uma rua pode ser útil. Em Stirling (cidade pequenina comparada com Aberdeen) perdemos quase uma hora à procura da Murray Place. Desta vez chegamos directas à Queen’s Road, número 8. Comparada com a pousada anterior esta era quase um hotel de cinco estrelas e, ouro sobre azul, tivemos um quarto só para nós com… LAREIRA! Apesar de ser Verão uma das viajantes quis que fosse Inverno…



* não sei que outra palavra podia descrever melhor essas pessoas.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Hoje vamos dormir a Stirling

mas ainda não fazemos a mínima ideia de como se vai até lá

Sem mapa, procuramos umas indicações rápidas no Google:

Depart Edinburgh Airport on local road (North) for 1.8 miles
Turn Right (West) on to A8 for 3.5 miles
At M8 J1 turn Right (North) onto M9 for 24 miles
At M9 J9 turn Right (North-East) A91 for 2.8 miles
Turn Left (West) onto A905 for 1.2 miles
Arrive in Stirling
Total Distance = 33.3 miles
Trip Length: Around 40 minutes

Fácil, não é? Agora é só decidir no avião quem vai ser a primeira maluca a conduzir o carro


(p.s. da pesquisa também resultou esta informação preciosa “Regarding Pubs try Nicky Tams or Outback. Those are the best pubs in Stirling, people are very friendly and you don’t get loud techno music beeing played at you”. Temos portanto Nicky Tams Vs Outback... adoramos dilemas :D )

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Dúvida Existencial

Como é que incluir o bikini na lista de coisas a pôr na mala combina com 13ºC de temperatura e céu "partly cloudy"?

Viajar barato

Implica ir ao continente nas vésperas e levar na mão uma lista de coisas para comprar que poderia ter sido feita a pensar num miúdo de 10 anos: bolachas, chocolates, queijos aos triângulos, cini-minis, marmelada e coisas boas da zona da charcutaria para se pôr nas sandes. Implica combinar na mochila estas coisas com roupa, chinelos, champoos e amaciadores , toalha, marmitas e impermeáveis baratos da decathlon. Implica viajar em low-costs e comprar o bilhete com 5 meses de antecedência (que mesmo assim não nos liberta da confusão dos lugares não-marcados e de entrar no avião como se estivéssemos a entrar num autocarro da carris atolado à hora de ponta – aos empurrões e com a gana de se apanharem os melhores lugares). Implica não se procurar hóteis e B&B que nos arrombariam o orçamento em menos de 72horas e sim ver de pousadas baratas literalmente perdidas no meio do nada e sempre com a surpresa de “quem estará ao nosso lado esta noite?”.

Existe um livro que se chama qualquer coisa como “Até onde consegues ir com mil euros?” e a ideia até está engraçada, mas como mil euros sempre são mil euros, e implica* quase por regra uma só viagem num ano, a nossa ideia é mais “onde é que consegues ir em três viagens com 333€?”. E até agora a Escócia não está longe desse valor. Deverá chegar o tempo em que iremos comprar pacotes de viagens às agências, em que iremos na conversa dos cartazes atractivos, e dos transfers, e do tudo-incluído, e das excursões diárias a sítios exóticos, mas existem tantas possibilidades fora destas viagens pré-cozinhadas, que podemos mesmo dizer que a nossa imaginação é o limite. A imaginação e o orçamento limitado. E nós preferimos assim.



Por isso, e quase a 24horas da partida, teremos tudo? As máquinas fotográficas, os cartões, os carregadores, o BI, a carta de condução, a roupa para o sol, a roupa para a chuva, a roupa para o tempo assim-assim, o estojo da higiene, a escova e a pasta de dentes, as moradas dos amigos, as boleias para as idas e vindas do aeroporto, a sandocha para quando aterrarmos, o baton do cieiro, o ben-u-ron para as emergências? Viajar barato é quase como ser um caracol =)



* para a massa humilde e pouco capitalista do “povo”